16 de fev de 2012

Bodas - parte 2



Todas as vezes que vou a um casamento fico EXTREMAMENTE sensibilizada (assim mesmo, com letra maiúscula). Algo em mim se afirma de uma maneira muito verdadeira e esperançosa. Revisito minha crença no amor, questiono como tenho vivido meus próprios votos de ser o melhor para mim e para o outro numa relação. Tomada pela esperança de um outro casal, seja ele qual for, fico ainda mais apaixonada. Adorno meu coraçãozinho aflito com muitas flores e vou transbordando o amor do outro multiplicado em mim.
Encharcada de tudo isso, escrevi esse texto-presente para a cerimônia de união da Bruna e do Renato, dois amigos muito queridos. E foi ao escrevê-lo que resgatei um texto antigo, minha última publicação no blog que chamei "Bodas - parte 1". Este virou o Bodas - parte 2", mesmo sendo só corpo, nada de número... E viva os encontros e desencontros do amor!

"Um encontro assim, num banco, numa balada, num supermercado. Não. Numa aula da universidade. Sim, algumas aulas. Ela, encantada com a maneira com que ele fazia aquilo parecer tão mais simples e vivo. Ele, encantado com a beleza fresca dela, o modo como entrava na sala, arrumava o cabelo atrás da orelha e abria a bolsa colorida dando um sorriso. Aquele-sorriso-de-sol-de-fim-de-tarde. Daí, happy hour que a turma fazia na casa dele, depois da aula, para tomar alguma coisa e conversar. Um vinho, papo amigável, descobrindo gostos em comum. "Não acredito que esse é seu filme preferido também!” “Pô, essa banda é realmente incrível!” “Você já prestou atenção na maneira como dói quando ela canta o refrão?". Dois vinhos, no canto da sala, descobrindo sensibilidades. "Acho que a gente insiste em mandar o outro embora porque a perda tem a sua beleza, não acha?" “Você também já pensou: estou enganando todo mundo?”. Três vinhos, silêncio, e só eles existiam ali, dentro daquela bolha. E foi naquela bolha, naquela sala, onde eles ficaram, respirando a respiração do outro. Para sempre.
Não. Não foi bem assim. Na verdade, eles são bailarinos. E foi assim que tudo começou: “ela no centro, ao lado dele. Ele lhe ofereceu a mão, e ela aceitou. A mão suada, com um leve tremor, conduziu-a um pouco à frente, e ela, bem devagar subiu a perna. Subiu, subiu, subiu. Ele saltou e a abraçou. Ela respirou e ele a levantou, e girou com ela. Muito suavemente ela colocou os pés no chão, e ele num impulso a levou mais adiante. Ela abaixou o corpo, e caiu na frente dele, ele atrás dela. Ela se preparou. Ele girou, levantou a perna dela, tomou-a pela cintura e voltou a colocá-la no chão. Aí, deixou-a e caminhou até o centro. Então, girou e saltou, girou e saltou. Correu, correu e a tomou novamente, e a lançou em um último impulso. E acabaram bem adiante. Ele caminhou até um lado, ela até o outro. E se encontraram no centro.”* Agradeceram de mãos dadas e nunca mais soltaram.
Bem, na verdade, talvez também não seja exatamente assim como tudo começou. Até porque eles tinham uma mania de inventar o início desse amor. E os amigos, que a cada vez escutavam uma história diferente, acabavam adorando, se identificando e acreditando em cada uma daquelas ficções tão verdadeiras de amor. Porque paixão nascendo é inevitavelmente lindo ou louco. E o que vem depois, tem sua própria trilha sonora, mas o roteiro é (sempre) meio clichê:
depois dos vinhos e das aulas e da dança, algumas peças de roupa foram ficando na casa dele, e ela só voltava para a dela para não deixar a coitada da planta, que não tinha nada a ver com o apaixonamento de ninguém, morrer. Aí ela já recebia a diarista de manhã, e inclusive conseguia encantá-la mais do que as outras que passaram pela vida dele. E ele já comprava o iogurte que ela mais gostava. E um já se tornava especialista em picanha para acompanhar o outro carnívoro inveterado, mesmo que há muitos anos o mais próximo que chegava de uma vaca era quando tomava leite longa vida. E ele acordava no meio da noite só para olhá-la mais de perto (quando ela estava acordada, se ele ficasse assim, olhando muito tempo, ela ficava grilada, achando que ele descobria os defeitos, as sardas, as olheiras). Então, ele guardava o sono dela, e colocava a mão entre o rosto e o pescoço para acalmá-la quando ela chorava em algum pesadelo. E eles já conheciam a loucura do outro. Um com a inclinação levemente neurótica de aproveitar pequenos melodramas cotidianos para ter o que levar para a próxima sessão de análise, elaborar sofrimentos antigos e transformá-los em algum aprendizado, em alguma arte. O outro com as manias obsessivas de deixar tudo no lugar e planejar e evitar qualquer dor assim, repentina. O fato é que cada precariedade do outro já era também amada. E eles se entendiam. E sabiam que eram as tentativas demasiadamente humanas de segurar a maçã no escuro. E eles se queriam bem a cada minuto e tinham vontade de que o outro estivesse sempre por perto para dividir as coisas grandes, as pequenas, e as sem nenhuma importância.
E eles ficaram juntos-juntinhos, e foi tão pleno! E de repente eles sentiam que conheciam tudo um do outro! E isso era tão intenso! E tão mágico! Tão... tão previsível... e já era tão familiar que eles já nem lembravam... Minuciosamente descobertos, às vezes, eles sentiam-se estranhos, como dois irmãos, que de tão perto, já nem se conhecem mais.
Mas não é que num dia, tão óbvio quanto os outros, enquanto esperava dentro do carro, ela sentiu aquele calafrio do primeiro beijo e viu como ele era amável e educado com as pessoas estranhas? E riu alto, achando fofo vê-lo fazer piadas espirituosas na fila do supermercado. E aconteceu que ele também, em mais um dia de domingo, olhou da janela, sem que ela percebesse, e novamente achou-a a mulher mais fresca & doce & única & cacheada & desejada por todos os outros que passavam. E eles entenderam. E queriam, a cada dia, encontrar as belezas e as estranhezas um do outro. Meio assim, de maneira despretensiosa, um pouco distante para não ficar tão descoberto. Um pouco de esgueio para continuar delicado e sombreado.
Então, eles quiseram casar, numa cerimônia diferente, nada de igreja, com os amigos. Já que eles eram modernosos, mas não faziam questão de ser (eles só queriam estar no tempo deles, no instante exato deles mesmos). E eles não foram felizes para sempre. Eles apenas viveram o amor amando, a cada dia. Desse jeito mesmo, tão simples e tão complicado.
Talvez essa história não seja bem assim. Tudo bem, tudo bem... não foi beeem assim. Também não sei se tudo aconteceu necessariamente nessa ordem. Mas quando se trata de amor, daquele que faz a vida ser mais doce de ser vivida, é um pouco disso aí. Da minha história, da nossa história, da de vocês. Que a gente se perca e se encontre. Que vocês se percam e se encontrem, em cada gesto, em cada passo, em cada dança, no centro, ou no cantinho do palco. Mas que permaneçam estranhos conhecidos que terminam sempre de mãos dadas."

*fragmento apaixonadamente furtado do espetáculo (m-a-r-a-v-i-l-h-o-s-o!) “3 solos em 1 tempo”, de Denise Stutz.

4 de fev de 2012

Bodas - parte 1

Esse é um texto antigo, "a little bit dark", mas pelo qual tenho um carinho, um afeto levemente masoquista. Resgatei-o ao escrever um texto-presente para o casamento de uma amiga querida. Estranhamente eles se encontram. Meio tipo yin e yang, sol e lua, ou nada disso. Só sei que ao escrever um texto mais solar e delicado sobre o encontro de duas pessoas, esse aqui reapareceu. Quero compartilhar ambos, e não me parece certo publicá-lo como "parte um" (para mim os fluxos criativos não obedecem uma cronologia), mas já que ele se materializou primeiro, eis o "Bodas - parte 1".

"Procurou as amigas, chorou, reclamou do morno da cama moldado à esquerda apenas pelo peso de seu corpo de mulher. Havia acordado aquela manhã e se assustado: viu o indizível do tempo. De nada adiantou os cremes. O tempo marca, e em descompasso a gente caminha. O tic-tac é monótono. Não é ritmo. Mas gente insiste em dançar com ele. Esse dançarino mecânico, o tempo. E acaba se enferrujando junto. Marcando o rosto com sulcos na testa. Endurecendo as articulações. Artrite. Endurecida e enferrujada ela se encontrou essa manhã. No espelho essa lucidez momentânea dos tropeços insistentes. Não. Ela não pensou tudo isso. Foi apenas aquela lucidez evidente e inexorável do tempo. Uma sensação do neutro inominável e inesquecível. Lamentou, então, com as amigas. Onde estava o amor, companheira? Aquele prometido sob noite de lua cheia? Todos aqueles planos de casa de praia, conta conjunta, animais domésticos e paixão? Que nunca deixaríamos apagar? Dez anos, e agora, daquele calor apenas uma vela quase sem linha, de cera requentada inúmeras vezes na panela inox que compramos para o lar. Só os 36 graus do meu corpo aquecendo o lado quase solitário da cama. A boca com reentrâncias, hálito de cigarro e Cepacol. Nada de novo. Também os amigos de sempre. Conselhos comedidos de uma: esquenta não... passa... é crise de bodas. Exacerbações da solteirona assumida e feliz: pula fora... vamos conhecer o barzinho novo, coroas grisalhos que comem direitinho e não deixam a gente na mão. Voltou. E no escuro do quarto onde havia deixado a outra, ela ainda a esperava. No breu infinito do cômodo impregnado pela mescla de perfumes femininos, tocaram seus rostos já flácidos. Encontrou a cicatriz na barriga dela. Aquela insensibilidade simétrica no corpo da outra. Sentiu as mãos pequenas tateando seus seios murchos. Reconheceram-se. Um, dois suspiros no silêncio. Levantou. Pendurou a bolsa preferida de brechó nos ombros, a jaqueta abafada no guarda-roupa úmido, o maço de cigarros, o cartão de crédito, as chaves do carro. Ligou para aquela mais maluquete. Talvez encontrasse alguém naquele bar. Trocariam olhares fugidios. Um pouco de gin, puxaria uma cadeira. Uns três ou quatro cigarros depois, ele a levaria ao seu apartamento e a desejaria com suas mãos de homem e seu membro teso, mas já amansado pelos anos. Se apaixonariam. Viajariam no fim de semana. Conheceria seu filho adolescente, do outro casamento. Também desfeito. Quem sabe olhassem a lua e ouvisse juras de amor eterno envolta nos braços dele. Mas antes de sair, abriu a geladeira. As maçãs argentinas escolhidas pela manhã no supermercado, ao lado do leite desnatado – a outra sabia que ela vivia brigando com a balança. Em cima da geladeira a erva enrolada na seda pelos dedos cuidadosos da companheira, bem do jeito que ela gostava, mas nunca conseguira fazer, em seus quase vinte anos de maconheira. Abriu o casaco na cadeira. Ajeitou a bolsa em cima da mesa. Fumou um cigarro. Pegou o pijama velho preferido, pendurado atrás da porta do banheiro – presente de sexto dia dos namorados. Ajeitou o travesseiro. Sentiu o cheiro do xampu novo nos cabelos da outra, e dormiu."