23 de jul. de 2011
Amy Winehouse - Bye bye little girl black
Hoje é um dia muito triste. Meu coração soprano, hoje é barítono e chora grave e rouco. Minha little girl black se foi. Mamãe me deu a notícia por telefone enquanto eu estava fazendo feira. Chorei com as sacolas na mão como se chorasse por uma amiga querida. Amy era como uma amiga. Não sou muito tiete, mas meus poucos ídolos são como amigos, que me acompanham de longe habitando minhas histórias imaginárias, meus dramas subjetivos, assoprando minhas feridas, fazendo companhia nos momentos de incompreensão total. Muitos artistas que admiro e gosto são apenas músicas, se tornam som sem dono, voz sem rosto. Mas Amy foi como a Janis em minha adolescência: quando a escuto é como se ela cantasse para mim. Sua música é viva, tem sua presença. Minhas vivências sempre têm cheiros e trilha sonora. Amy embalou alguns dos momentos mais importantes em minha vida. Quando me separei e fiz uma “rehab” sentimental na casa dos meus pais, “Back to black” e “Love is a losing game” foram a perfeita tradução de minha dor e eu não me sentia tão sozinha. Ela me entendia. Não me esqueço de uma noite, a mais dolorida de todas, em que o mundo dormia e eu só sentia. “Love is losing” ressoava incessantemente em minha cabeça, como a legenda de algo que ainda não tinha significante possível. E quando meu coração começou a pulsar novamente, “Tears dry on their on” me dava aquela esperança de continuar, porque afinal, eu já sou crescidinha “and in my way, in this blue shade, my tears dry on their own”. Ela também é trilha de meu amor! Eu e minha companheira dançamos muito ao som de Amy. E foi a primeira de nossa lista de casamento. Na verdade, uma das poucas orientações ao DJ foi: muuuuita Amy Winehouse. Todo mundo pirou e celebrou o amor ao som de nossa louca amante inveterada. Quando ela veio ao Brasil tive certeza de que essa seria a minha única oportunidade de vê-la. Eu sabia que Amy não suportaria muito tempo. No dia do show me senti novamente adolescente. Olhos pintados de gatinho. Ônibus de excursão. O dia parecia não passar. Não via a hora de finalmente ver minha diva trash. E claro, todos nós dividíamos a apreensão e a incerteza de que entraria para seu último show no Brasil. A cada minuto de atraso meu coração palpitava e eu pedia com muita força que ela só fizesse mais esse, pois eu estava ali, no meio de uma multidão que se espremia, só para vê-la. Quando Amy entrou foi muito emocionante e chocante. Ela era realmente linda em sua singularidade. Sua peruca reinventada, sua perninha palito balançando sem ritmo. Mas também era de uma fragilidade indescritível. Miúda demais para aquele palco de super produções, Amy não conseguia se dirigir ao público. Quando olhava para frente e via aquele mundaréu de gente, abaixava a cabeça e bebia seu copo. Quando saía do palco todos ficávamos tensos, com medo que ela não retornasse. A banda também parecia não relaxar muito, e estar a todo o momento pronta para acudir mais um passo cambaleante. O início, como todos sabem, foi meio confuso. Trocava as letras, atrasava o andamento. Mas só quem estava lá sabe o que é escutá-la quando ela está toda presente, solta, Amy. Era uma potência tão tocante e dolorosa. Realmente emocionante. O show foi curto. Acho até que mais longo do que ela gostaria. Era tudo muito grande para aquela menina frágil e intensa. Seu show deveria ser pequeno e intimista. Minha amiga disse algo que acredito ser o que mais exprime a Amy que vimos: ela parecia uma criança perdida no parque. Dava muita vontade de vê-la cantar, e ao mesmo tempo, se eu pudesse a pegaria pela mão, tiraria de lá, e lhe diria, “tudo bem, tudo bem”. Ela despertava uma vontade de cuidar, sabe? Ao final, fomos embora com um aperto no peito, como uma despedida. Foi tão marcante e fugidio... Como ela, que viveu intensamente e acredito que dolorosamente. E se foi. Hoje estou de luto por minha amiga. Bye Amy! Espero que alguém lhe pegue pela mão e cuide de você.
"Back to black, back to nothing. No more wine in the house" (Claos Mozi)
21 de jul. de 2011
Das vantagens de ser bobo
Tenho tido uma curiosa mudança de valores. Sempre me interessaram os inteligentes, os estudados, os eruditos. Porém, ultimamente tudo isso anda me cansando bastante. Tenho notado que muitas vezes o saber acaba deixando as pessoas mais vazias. E chatas. Discussões por discussões, daquelas, que uma amiga minha diria: de um quilo não sobrou cem gramas. Porque a conversa vira um infindável rebatimento de argumentos só para provar que um está mais certo que o outro. E o se sobressair como finalidade única, descola o papo da vida vivida, e dali, nada realmente útil se tira. Ainda continuo sendo caxias porque também tenho amor às criações, e não faço apologia à burrice. Mas tenho gostado de me fazer de boba, meio sonsa sabe, para ir vivendo secretamente do meu jeito, com algumas idéias tolas que muitas vezes nem ouso falar em voz alta. Tenho me dedicado também a encontrar beleza e esperteza nos seres cotidianos. Nossa, como são mais interessantes! Não precisam perder tempo em ficar tentando provar. São simplesmente o que sabem. E são muito mais criativos porque não têm que se restringir a nenhuma teoria, que não a deles próprios. Acolhem sem preconceito o que lhes vêm à cabeça. E ainda, não ficam angustiados quando não entendem. E esse é o maior ensinamento para mim. Suportar o não entender. Acolhê-lo em meu corpo antes que ele vire mente e fique chato, descoberto, como tudo. Ai, como é vivo o não saber, o não entender. E como é bom para mim, uma escorpiana típica (que tem a terrível tendência paranóica a dissecar minuciosamente tudo o que lhe chega) experimentar a beleza da estranheza. E nesse meu momento de amor à simplicidade e à bobeira acabei encontrando um texto de Clarice (cabeções de plantão: Clarice vale, pois ela a gente entende com o corpo), chamado “Das vantagens de ser bobo”. Tão esperto em sua bobalhice que vale algumas citações:
- a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar e, portanto, estar tranqüilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado.
- ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos.
-os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham a vida.
-é quase impossível evitar o excesso de amor que um bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.
E pra finalizar, (essa é dedicada aos meus conterrâneos mineiros): há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas!
18 de jul. de 2011
Contratempo
Coisas que acontecem no contratempo
Não se sujeitam ao consenso
Ficam no fundo
Enquanto o resíduo perece
Sabedorias feitas na manga
Servem ao estado presente
Ficam distinto(s)
Enquanto a maioria embarga
Se a relação do contratempo
E do tempo presente
Assimilarem
Não se precisava de viagens (asm)(cosm)áticas
As teorias seriam atendidas
Mas a inteligência limita a autonomia humana
Marcadores:
Lali Puna
13 de jul. de 2011
Para James: praticando poesia
discurso fluente como ato de amor
incompatível com a tirania
do segredo
como visitar o túmulo da pessoa
amada
a literatura como clé, forma cifrada de falar da paixão que não
pode ser nomeada (como numa carta fluente e "objetiva").
a chave a origem da literatura
o "inconfessável" toma forma, deseja tomar forma, vira forma
mas acontece que este é também o meu sintoma, "não
[conseguir falar"=
não ter posição marcada, idéias opiniões, fala desvairada.
Só de não-ditos ou de delicadezas se faz minha conversa, e
[para não
ficar louca e inteiramente solta neste pântano, marco para
[mim o
limite da paixão, e me tensiono na beira: tenho de
[meu (discurso)
este resíduo.
Não tenho idéias, só o contorno de uma sintaxe (= ritmo).
Ana Cristina César
incompatível com a tirania
do segredo
como visitar o túmulo da pessoa
amada
a literatura como clé, forma cifrada de falar da paixão que não
pode ser nomeada (como numa carta fluente e "objetiva").
a chave a origem da literatura
o "inconfessável" toma forma, deseja tomar forma, vira forma
mas acontece que este é também o meu sintoma, "não
[conseguir falar"=
não ter posição marcada, idéias opiniões, fala desvairada.
Só de não-ditos ou de delicadezas se faz minha conversa, e
[para não
ficar louca e inteiramente solta neste pântano, marco para
[mim o
limite da paixão, e me tensiono na beira: tenho de
[meu (discurso)
este resíduo.
Não tenho idéias, só o contorno de uma sintaxe (= ritmo).
Ana Cristina César
11 de jul. de 2011
"Nestas circunstâncias o beija-flor vem sempre aos milhares"
Este é o quarto Augusto. Avisou que vinha. Lavei os sovacos e os pezinhos. Preparei o chá. Caso ele me cheirasse... Ai que enjôo me dá o açúcar do desejo.
Ana C.
Carta de Caio Fernando Abreu à Adriana Calcanhoto
Voltei a devorar o livro Cartas de Caio Fernando Abreu. A cada leitura me admiro, rio muito, choro, me identifico e tenho surpresas como essa.
"Adriana C.
Minha sempre deusa, continuo anadando pelo mundo, chorando ao telefone, prestando muita atenção, divertindo gente, a fome dos meninos da Yoguslávia nas ruas ricas da West-Berlim dói tanto ou mais quanto os nigrinhos do Rio, há dez meses acordo e não tenho ninguém do lado - os meus amigos, cadê? - vou/irei à Tchecoslováquia, talvez Hungria, Jakarta, mas perdi alguma coisa no Brasil, "à tarde maria dorme", tenho medo, matam turcos e a estrada é enorme, mas tua voz e tua música me aconchegam entre Paris/Amsterdam/Berlim/Praga/London/ tudo é muito igual e belo os alemãezinhos ao sol do verão fugaz deles. Te mando retalhos e amor.
Caio F." Berlim 01.07.93 (cartão)
"Adriana C.
Minha sempre deusa, continuo anadando pelo mundo, chorando ao telefone, prestando muita atenção, divertindo gente, a fome dos meninos da Yoguslávia nas ruas ricas da West-Berlim dói tanto ou mais quanto os nigrinhos do Rio, há dez meses acordo e não tenho ninguém do lado - os meus amigos, cadê? - vou/irei à Tchecoslováquia, talvez Hungria, Jakarta, mas perdi alguma coisa no Brasil, "à tarde maria dorme", tenho medo, matam turcos e a estrada é enorme, mas tua voz e tua música me aconchegam entre Paris/Amsterdam/Berlim/Praga/London/ tudo é muito igual e belo os alemãezinhos ao sol do verão fugaz deles. Te mando retalhos e amor.
Caio F." Berlim 01.07.93 (cartão)
9 de jul. de 2011
All Star
À primeira menina ruiva foi pé-ante-pé, alguns emails anônimos. Nada além. Uma única conversa ao fim de um ano platônico. “Como pode gostar de alguém que não conhece? Sei lá, sou assim mesmo. Amo Janis Joplin, amo Ana Cristina, Caio Fernando, Luther King, minha bisavó. Todos esses seres imaginários”. Mas daí ela foi. E eu fiquei. Tudo bem e tchau. Um amorzinho alaranjado. Daí veio a perdida, míope e descabelada. Assim, mais louca que eu. Duas meninas numa bicicleta com garupa e com cestinhas para as compras, uma casa bagunçada, pé de maracujá e alguns sonhos coloridos. Na vida real tudo isso se desfez. Ela foi. E eu fiquei. Morri e remorri “a hundred times”. E foi no rasgo, lapso de mim, que meu vermelho amor ressoou. Aquela que eu passei a amar antes do sol. Fui clichê. Mãos dadas na beira do mar, música nossa, bolha de amor, tatuagem, bilhetes pela casa, aliança com diamantes (bem pequeno porque a gente continua sem grana). Sem pé-ante-pé, bem ao meu estilo. Barulhenta, dançando pelada pela casa, deixando meus lenços pelos cantos, arranhando a lua cheia. Voracidade de gata ranheta. Ela não foi. Ficou comigo nesse mundo que é tão nosso. Banheiro rosa, conchas, All Star, xícaras de bolinhas, creme para cachos, filme antigo.
Ai baby fica comigo até eu acabar de contar suas sardas infinitas?
6 de jul. de 2011
Nossa lua turca
E finalmente as nuvens se dissiparam e a gente pôde ver novamente nossa lua turca e sentarmos juntas nela e balançar nossos pés. Às vezes nossos dias sangram e é assim mesmo no encontro de duas mulheres. E a cada gota você me ensina a cuidar mais um pouco. E a falar antes de ensurdecer de silêncio. E quando escorro eu te ensino a dançar no meu ritmo. E te ensino a abrir um pouco ao sol da meia-noite. E tem a confiança de que o caos se arranja. E de que depois de tudo vem o cio. E os beijos-mergulhos. E o cheiro de fêmea. E a mansidão do depois. E algumas manchas de sangue (as borras dos encontros). E o mais lindo: alguns cachos avermelhados. Baby, é tão linda sua ruivosidade...
5 de jul. de 2011
Alice no país das maravilhas
"Nesta direção", disse o Gato, girando a pata direita, "mora um Chapeleiro. E nesta direção", apontando com a pata esquerda, "mora uma Lebre de Março. Visite quem você quiser quiser, são ambos loucos."
"Mais eu não ando com loucos", observou Alice.
"Oh, você não tem como evitar", disse o Gato, "somos todos loucos por aqui. Eu sou louco. Você é louca".
"Como é que você sabe que eu sou louca?", disse Alice.
"Você deve ser", disse o Gato, "Senão não teria vindo para cá."
3 de jul. de 2011
28 de jun. de 2011
Lembranças
Um dia desses um paciente me disse que uma de suas maiores surpresas não foi descobrir que poderia ser diferente, mas que a despeito de qualquer mudança o passado não se apagava. Mesmo na gaveta fechada lá de dentro ele retornava assim, num sonho, num flash de pensamento. Eu sempre me pego pensando nisso. Não sou uma saudosista, mas freqüentemente sou assaltada por alguma memória quase insignificante, daquelas que no momento vivido pareciam não ter importância alguma. Outras vezes vem a lembrança de algo que você nunca imaginou que seria lembrança, pois acreditava que aquilo sempre estaria com você, mas que pelo movimento da vida você acaba esquecendo ou simplesmente perde o sentido. Nas lembranças tudo isso se mistura. Há pessoas distantes que passaram por minha vida, mas que retornam em mim, e penso no que teria acontecido com elas. Como está a menina mais quieta da quarta série que só usava bermudas, mesmo no inverno? Será que ela floresceu? Será que foi fazer contabilidade? Será que teve filhos? Será que continua solitária? Será que ela também se lembra de mim como eu me lembro dela? Às vezes me sinto o cheiro do meu primeiro beijo, brincando de casinha. Cheiro bom de saliva de criança. Cheiro de infância. E o cheiro do Halls da adolescência? Lembro-me do piso vermelho queimado, bem perto do meu rosto, num tombo que levei da escada da casa onde nasci. Da primeira barata que vi, ainda bebê, e se tornou objeto de minha fobia. Da mão macia de meu avô. Uma pele tão fina com os dedos enrugados, longos e rosados (vovô tinha os dedos rosa shock!). Lembro-me dos pés da minha mãe, num chinelo Samoa azul, balançando ao som da rádio Itatiaia, e eu brincando embaixo da prancheta para ficar perto enquanto ela trabalhava. O olho azul doído, emoldurado em cílios queimados de uma estranha na rua (muitas vezes me pus a imaginar como ela os queimou. Será que ela tentou acendeu um cigarro no fogão?). Não esqueço a luz da rua aonde ia para ficar com os meninos, e o pé de amora que tinha lá. A primeira vez que andei de bicicleta sem rodinhas e meu pai me soltou (ali aprendi que quem te ama pode também te soltar ladeira abaixo...). A lembrança da primeira vez que uma amiga me feriu, dizendo que só ficava comigo no recreio para comer meu lanche, que eu era “chatinha” e que preferia as outras meninas. Algumas lembranças que você não gostaria de se lembrar, mas lembra. Lembranças singelas, de uma casa como as outras, de um beijo como os outros. Mas que permanecem em você por muito tempo. Ou para sempre naquela gavetinha que se abre vez ou outra enquanto caminha, escuta uma música ou abre a janela de manhã. Você muda, mas é sempre a mistura daquele olhar dolorido, daquela menina tímida, daquele cheiro doce. E tudo isso ainda te admira. Tudo isso é você.
26 de jun. de 2011
Amargarida
Este é um texto antigo. Um fluxo de pensamento dolorido e desesperado. Como diz o Caio Fernando, é minha "ovelha negra". Me gusta.
Queria quebrar tudo. Deitava na posição fetal e esperava. Esperava algo acontecer. Talvez que a coragem de quebrar lhe assaltasse de repente, e não fosse mais possível conter. Conter aquele medo de quebrar coisas importantes. Imaginava estilhaçar os pratos, um por um. Depois os copos. E as xícaras. Socar as janelas, e arrebentar os vidros. Talvez cortar as mãos. Depois passar às prateleiras e derrubar tudo de uma só vez. Tudo. Cada livro. Cada souvernir. Cada cd. Mas daí pensava. Gostava dos cds da Maria Bethânia. Também tinha aquela mulher de argila oferecendo o ventre aos deuses que a amiga lhe dera. E o telefone amarelo-ovo que haviam demorado tanto pra encontrar. Sabia que não acharia outro igual. Tinha medo de quebrar. Ficava então, imóvel. O tempo que agüentasse. O tempo que agüentasse sua cabeça pensando. E pensando. E pensando. Como disco velho arranhado. Ou todas aquelas coisas desconexas, que teimavam em se encadear numa lógica desconhecida e insuportável. Amor ódio culpa riso os lugares ir embora ficar os gatos terapia livros saudade falta coragem escrever comida cortar margaridas despetaladas desespero sem paz separação fragilidade Caio Fernando mãe comédia inimigos amigos amantes pacientes fórmulas violência processo perfume breu cores lâmpada solidão nó. "E de repente olhaste uma flor sobre uma sepultura e disseste que gostava tanto de amarelo e eu disse que amarelo era tão vida e sorriste compreendendo e eu sorri conseguindo e vimos uma margarida e nem sequer era primavera e disseste que margarida era amarelo e branco e eu disse que branco era paz e disseste que amarelo era desespero e dissemos quase juntos que margarida era então desespero cercado de paz por todos os lados"*. Era margarida despetalada. Só desespero. Sem espinho. Apenas aquele caule frágil, verde, com penugem. Antes fosse rosa. Rosa vermelha despetalada. Caule duro e espinhosa. Não pudera escolher. Simplesmente era. E quando constatava isso, acusava a outra de existencialista. Mas ela o era. Só sabia ser trágica. Na verdade, só aceitava ser trágica. Mas se pegava dramática e risonha. Gargalhava e chorava, junto. Odiava. Tragicomédia, odiava. Como era possível rir de desespero? Nunca entendera a prima. Quando criança, a havia visto rir de desespero. Rir de medo. Como era possível? Sentia raiva quando se encontrava rindo, despetalada. Como parar o processo? Margarida ao vento sozinha no matagal despetalando. Sozinha de desespero e riso. Angústia. Fragilidade. Foi plantada numa redoma, mas quis crescer em meio ao mato selvagem. Irmã das ervas daninhas. Estupro do vento. Existe deixar ser estuprada? Ou estupro é só quando a gente não quer? Ou também é quando o outro acha que a gente quer, mas a gente não quer? Uma margarida só é margarida se puder ser despetalada? Bem-me-quer, mal-me-quer, bem-me-quer, mal-me-quer... até sobrar só desespero. Talvez eu seja dessas mesmo, que só serve pra ser despetalada ao vento, ou pelas mãos de uma mocinha decepcionada com o amor. Daquelas que se deixam estuprar só pra entender que a redoma é mais feliz. Sem brisa e sem estupro. Só sombra e água fresca, como lhe disseram. Mas essa vontade de nascer no mato não teria vindo daquelas mãos que lhe regavam? Uma vez, teve uma tarefa na escola. Teria que regar dois grãozinhos de feijão no algodão. Um com muito amor. E o outro uma raiva danada. O feijãozinho feliz crescia que era uma beleza, tinha que trocar de vaso, amarrar pauzinho de churrasco no caule pra não tombar. O outro não vingava. Secava. O professor esqueceu do dever de casa, e a gente nem pôde falar sobre as mudas de estimação. Mas tenho a lembrança de que entendi que cresciam bem do jeito que a gente se derramava sobre elas. Talvez aquelas mãos cuidadosas estavam cansadas de cuidar. Talvez sua vida fosse cuidar. Mas quem disse que a gente escolhe ser jardineiro ou margarida? Só ficava lá, ao vento, desnudada. Sem-paz-com-paz-sem-paz-com-paz. Mais desespero que paz. E seus pés estavam presos ao chão. À terra. À mãe. Cordão umbilical. Posição fetal em meio às cobertas, às roupas e meias sujas jogadas pelo quarto. Só imaginando levantar e quebrar tudo. Tombada pelo vento forte de outono. Arraigada. Imaginando os lugares para onde voaria cada uma de suas pétalas. E com medo. Muito medo de quebrar.
*Caio Fernado Abreu
Queria quebrar tudo. Deitava na posição fetal e esperava. Esperava algo acontecer. Talvez que a coragem de quebrar lhe assaltasse de repente, e não fosse mais possível conter. Conter aquele medo de quebrar coisas importantes. Imaginava estilhaçar os pratos, um por um. Depois os copos. E as xícaras. Socar as janelas, e arrebentar os vidros. Talvez cortar as mãos. Depois passar às prateleiras e derrubar tudo de uma só vez. Tudo. Cada livro. Cada souvernir. Cada cd. Mas daí pensava. Gostava dos cds da Maria Bethânia. Também tinha aquela mulher de argila oferecendo o ventre aos deuses que a amiga lhe dera. E o telefone amarelo-ovo que haviam demorado tanto pra encontrar. Sabia que não acharia outro igual. Tinha medo de quebrar. Ficava então, imóvel. O tempo que agüentasse. O tempo que agüentasse sua cabeça pensando. E pensando. E pensando. Como disco velho arranhado. Ou todas aquelas coisas desconexas, que teimavam em se encadear numa lógica desconhecida e insuportável. Amor ódio culpa riso os lugares ir embora ficar os gatos terapia livros saudade falta coragem escrever comida cortar margaridas despetaladas desespero sem paz separação fragilidade Caio Fernando mãe comédia inimigos amigos amantes pacientes fórmulas violência processo perfume breu cores lâmpada solidão nó. "E de repente olhaste uma flor sobre uma sepultura e disseste que gostava tanto de amarelo e eu disse que amarelo era tão vida e sorriste compreendendo e eu sorri conseguindo e vimos uma margarida e nem sequer era primavera e disseste que margarida era amarelo e branco e eu disse que branco era paz e disseste que amarelo era desespero e dissemos quase juntos que margarida era então desespero cercado de paz por todos os lados"*. Era margarida despetalada. Só desespero. Sem espinho. Apenas aquele caule frágil, verde, com penugem. Antes fosse rosa. Rosa vermelha despetalada. Caule duro e espinhosa. Não pudera escolher. Simplesmente era. E quando constatava isso, acusava a outra de existencialista. Mas ela o era. Só sabia ser trágica. Na verdade, só aceitava ser trágica. Mas se pegava dramática e risonha. Gargalhava e chorava, junto. Odiava. Tragicomédia, odiava. Como era possível rir de desespero? Nunca entendera a prima. Quando criança, a havia visto rir de desespero. Rir de medo. Como era possível? Sentia raiva quando se encontrava rindo, despetalada. Como parar o processo? Margarida ao vento sozinha no matagal despetalando. Sozinha de desespero e riso. Angústia. Fragilidade. Foi plantada numa redoma, mas quis crescer em meio ao mato selvagem. Irmã das ervas daninhas. Estupro do vento. Existe deixar ser estuprada? Ou estupro é só quando a gente não quer? Ou também é quando o outro acha que a gente quer, mas a gente não quer? Uma margarida só é margarida se puder ser despetalada? Bem-me-quer, mal-me-quer, bem-me-quer, mal-me-quer... até sobrar só desespero. Talvez eu seja dessas mesmo, que só serve pra ser despetalada ao vento, ou pelas mãos de uma mocinha decepcionada com o amor. Daquelas que se deixam estuprar só pra entender que a redoma é mais feliz. Sem brisa e sem estupro. Só sombra e água fresca, como lhe disseram. Mas essa vontade de nascer no mato não teria vindo daquelas mãos que lhe regavam? Uma vez, teve uma tarefa na escola. Teria que regar dois grãozinhos de feijão no algodão. Um com muito amor. E o outro uma raiva danada. O feijãozinho feliz crescia que era uma beleza, tinha que trocar de vaso, amarrar pauzinho de churrasco no caule pra não tombar. O outro não vingava. Secava. O professor esqueceu do dever de casa, e a gente nem pôde falar sobre as mudas de estimação. Mas tenho a lembrança de que entendi que cresciam bem do jeito que a gente se derramava sobre elas. Talvez aquelas mãos cuidadosas estavam cansadas de cuidar. Talvez sua vida fosse cuidar. Mas quem disse que a gente escolhe ser jardineiro ou margarida? Só ficava lá, ao vento, desnudada. Sem-paz-com-paz-sem-paz-com-paz. Mais desespero que paz. E seus pés estavam presos ao chão. À terra. À mãe. Cordão umbilical. Posição fetal em meio às cobertas, às roupas e meias sujas jogadas pelo quarto. Só imaginando levantar e quebrar tudo. Tombada pelo vento forte de outono. Arraigada. Imaginando os lugares para onde voaria cada uma de suas pétalas. E com medo. Muito medo de quebrar.
*Caio Fernado Abreu
29 de mai. de 2011
16 de mai. de 2011
O tempo leva tudo, exceto nossa história
Há algumas semanas recebemos a notícia de que minha avó estava doente. Vovó sempre foi a matriarca da família. Nem cheguei a conhecer meu avô. Falecido antes de meu nascimento, nunca notei sua falta. Vovó sempre ocupou todos os espaços. Ela chegou a morar conosco quando eu era pequena e mais precisava de presença. Papai e mamãe sempre trabalharam muito, e era ela quem passava a maior parte do tempo comigo. Vovó amassava inhame no feijão preto e me dava de colher. Fazia o mesmo com o angu. Era a única que conseguia me alimentar sem muito esforço. Foi ela que me ensinou que misturar amarelo com azul dava verde, quando não tinha essa cor para pintar uma árvore do dever de casa. Vovó me fazia chiquinhas e tranças apertadas. E me ensinou a oração do anjo da guarda, que rezo até hoje quando tenho pesadelos. Ela me contava histórias todas as noites, e mesmo que eu sempre pedisse as mesmas, ela repetia como se fosse a primeira vez. Nunca mais escutei a história de João e Maria da maneira que ela contava: um rabinho de rato fazia as vezes do dedinho magro para enganar a bruxa, que se transformava num reluzente cavalo branco depois de ser jogada dentro do caldeirão! Vovó também tinha seu lado bruxa, como todas as mães do mundo. Me colocava para descascar alho com as mãozinhas peladas. Quase me matou passando Detefon em minha cabeça com piolhos (ela tinha umas receitas peculiares...). Passei uma tarde toda escondendo meu dedo talhado depois de desobedecê-la e usar a faca afiada para cortar o pão. Mas não havia colo mais acolhedor! Quando ela descobriu os metros de papel higiênico ensangüentados pela casa, me acudiu como só uma avó sabe fazer. Uma vez, quando fiquei doente com esperanças de que mamãe pudesse ficar mais em casa para cuidar de mim, foi ela quem ficou. Fez sopinha e deu banho “tcheco” para não judiar de mim. Quando mudamos para Piracicaba foi dela de quem mais senti saudades. Quando a visitava, eu era novamente a pessoa mais amada do mundo. Ela me pedia pra dormir junto com ela, me fazia escutar suas orações infindáveis, porque tinha que rezar por todos os conhecidos. Sempre respeitou minhas escolhas. Seu amor estava acima dos valores que havia aprendido por toda a vida em sua religião arcaica. Agora, vovó está em uma cama, dependendo do cuidado das pessoas, e não podemos estar lá para acompanhá-la. Eu sei que isso não é o que ela esperava. Por isso talvez esteja desligando sua consciência. Mandou-me o recado de que seu tempo na Terra está acabando, mas que esperará minha visita. Vovó ainda está aqui, de sua maneira (como sempre), entre nós. O tempo é a única coisa realmente democrática no mundo. Ele é implacável com todos nós. Já estou me preparando para quando vovó se desligar completamente e não mais me reconhecer. Não sei como vou reagir quando ela for viver no lugar onde sempre imaginou e nos deixar. Mas para onde quer que ela vá, vovó sempre vai estar em mim. Seus causos, o cheiro do seu feijão, suas receitas envenenadas . Hoje eu cresci, mas estranhamente eu sempre vou ser a neta de chiquinhas cacheadas. E a cada partida eu vou entendendo que o tempo pode levar tudo, exceto nossa história
20 de abr. de 2011
18 de abr. de 2011
Antony And The Johnsons 'Fistful Of Love'
Um punhado de amor
11 de mar. de 2011
Que seja doce
Ando feliz com a vida. Eu que sempre fui dramática, com um rouge a mais como prefiro dizer, estou exercitando um mantra que aprendi em “Os dragões não conhecem o paraíso”, de Caio Fernando Abreu: que seja doce, que seja doce, que seja doce. Lembro-me que aos 13 ficava ansiosa ao pensar nos meus 30. Tinha a idéia fixa de que seria o fim. Nada existia depois disso. Não imaginava a morte. Era simples assim: nada. Hoje estou no alto dos meus 28 anos, com muita história pra contar (meu irmão diz que ter história é sinal de estar ficando velho...). E acabei de sair de minha adolescência. Há uns dois anos atrás falei com minha analista: “pronto, passou, agora não me sinto mais adolescente”. Não sei bem o que isso quer dizer, mas uma palavra boa é serenidade, e outra, confiança. Confiança de que as coisas se resolvem e não vão acabar assim, do nada. Sinto que vou passar dos 30. E se não, não vou me angustiar antes por aquilo que ninguém sabe (um paciente me perguntou o que acontece quando a gente morre. Respondi que não sabia sobre a morte. Só sabia que a vida, a gente vivia). Apesar de fazer planos e sonhar, estou aprendendo a viver mais o presente. E saber que tudo passa, que o tempo ameniza as dores, e muitas vezes torna nossos monstros, formiguinhas (ou ao menos, os prende num lugar onde não nos assustam tanto). Assim, o tempo, além de marcas que vou tentando assimilar em meu corpo, vem me trazendo delicados presentes cotidianos. E vou me habitando cada dia mais. Às vezes transbordada de mim, outras, achando cantinhos mais macios. Tenho esperanças amarelas e um amor. Tenho acreditado nele e na possibilidade de mantê-lo vivo. Tenho andado feliz com a vida.Que seja doce, que seja doce, que seja doce.
6 de fev. de 2011
A dor
E hoje aprendi a querer alguma coisa no que me acontece, mesmo que no início me pareça apenas dor. Nada é em todo escuro. Mas é preciso querer, é preciso lançar luz, abrir o peito. É preciso querer algo no que te acontece. E aquilo que no desespero era dor e dor, te torna, enfim, digno de receber.
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