17 de mar de 2012

Ana Cristina Cesar - carta à amiga Cecília


Cecília, minha querida,
Estou sentindo dificuldade real de transar com as pessoas. Parece uma frase muito genérica, que se poderia dizer a qualquer momento da vida. Mas agora tem um sentido mais particular para mim. Me sinto isolada, sozinha, sem amigos. Há os amigos, mas desconfio deles, acho sempre que não gostam de mim. Talvez eu esteja entrando em contato com alguma coisa que sempre foi verdade mas que eu nunca percebi: que realmente eu não tenho relações. Outro dia tive uma depressão forte. Estava sozinha em casa. Percorri o caderninho de telefones. Não tinha nenhum nome que pudesse ajudar. É bem verdade que eu tinha desejo de um colo, de um consolo, que eu mesma preferi não buscar ninguém, era uma barra minha, de uma certa forma não adiantava ninguém. Pensei também que você e Ana Cândida estavam longe.
(Achei um saco escrever essa carta começada e resolvi começar outra. O assunto saiu diferente, mas resolvi deixar essa folha nem sei por quê. Talvez um pouco para reproduzir na correspondência a comunicação oral, onde as frases não podem ser apagadas, onde não se pode eliminar nada).)"

KAMA SUTRA: sobre como conquistar uma mulher


"Dessa maneira, o homem deve fazer aquilo que proporcionar mais prazer à moça, dar-lhe tudo o que ela tiver o desejo de possuir. Por isso, deve obter-lhe brinquedos pouco conhecidos de outras moças. Também pode mostrar-lhe uma bola tingida com várias cores e outras curiosidades. Deve dar a ela bonecas fabricadas com tecido, madeira, chifre de búfalo, marfim, cera, farinha ou terra. Também utensílios de cozinha e imagens em madeira, como um homem e uma mulher em pé ou um par de carneiros, cabras ou ovelhas. Templos feitos de terra, bambu ou madeira, dedicados a várias deusas. Gaiolas para papagaios, cucos, estorninhos, codornas, galos e perdizes. Vasilhas de água de diferentes tipos e de formas elegantes, máquinas de aspergir água, violões, suportes para imagens, banquetas. (...) Em resumo, ele deve tentar de toda a maneira fazer com que ela o veja como o homem que fará por ela tudo o que desejar." (KAMA SUTRA - Vatsyayana)
(foto: Henri Lartigue)



13 de mar de 2012

Café



Hoje você me deixou um bilhete: "Amor meu,". Assim mesmo, o amor, antes do meu. Não "meu amor", como todos outros. Tão nosso, tão meu, tão seu. Mas antes de qualquer pronome possessivo, amor. Simplesmente amor. Eu vinha sentindo saudades de ser acordada com uma música escolhida pelas suas mãos tão brancas e seus dedos rosados. "Será que o amor se esvai a cada dia do calendário?", eu me pergunto boba, na usual insegurança que lateja nos dias de chuva. Mas eu entrei essa manhã protegendo meus olhos inchados contra o sol das nove horas. Dentro da minha caneca branca de bolinhas cinzas, um pedaço singelo de papel. Instruções sobre o café, sobre o almoço. E apesar de toda a contra indicação de iogurte (suas coisas de acupunturista, porque tenho "uma deficiência de baço"), colocou aquele de cenoura e mel, que amo... Você prometeu, baby, quando nos casamos, na frente de todos os nossos amigos, que todas as manhãs ia cuidar de mim. E mesmo sem trilha sonora, nosso amor tem cheirinho de café, tem bolacha esquisita, geléia, pão alemão, nutella, danoninho, pasta de amendoim ou qualquer outra doideira que você inventa, porque eu sou enjoada pra caramba no desjejum. E nas manhãs preguiçosas, vamos renovando nosso amor. Com seu bilhete cuidadoso nas mãos, de repente e quase desesperadamente, eu anseei por mais um dia no calendário, mais muitos, mais dezenas deles! E o medo do silêncio e do tédio foi arrebatado, mais uma vez, pela ânsia de não ter tempo bastante para experimentar e transbordar em você toda ternura que sinto, a cada xícara de café.
*Baby, jura de pés juntos que me mima assim a vida inteira?

12 de mar de 2012


"Procurei algo a que apegar-me - e nada encontrei. Mas ao procurar, no esforço para agarrar, para apegar-me, perdido como fiquei, encontrei uma coisa que não buscava - eu próprio. Descobri que aquilo que eu desejara toda minha vida não era viver - mas expressar-me. Percebi que nunca tivera o menor interesse em viver, mas apenas nisto que estou fazendo agora, algo que é paralelo à vida, que faz parte dela e ao mesmo tempo fica além dela. Absolutamente não me interessa o que é verdadeiro, nem mesmo o que é real. Só me interessa o que eu imagino que é, aquilo que eu sufoquei todos os dias a fim de viver. Morrer hoje ou amanhã não me importa, nunca me importou, mas não poder mesmo hoje, depois de anos de esforço, dizer o que penso e sinto - isso me incomoda, me exaspera." (Henri Miller - Trópico de Capricórnio)