24 de jul de 2012

Labirinto da solidão


"A solidão, o sentir-se e saber-se só, desligado do mundo e alheiro a si mesmo, separado de si, não é característica exclusiva do mexicano. Todos os homens, em algum momento da vida, sentem-se sozinhos; e mais: todos os homens estão sós. Viver é nos separarmos do que fomos para nos adentrarmos no que vamos ser, futuro sempre estranho. A solidão é a profundeza última da condição humana. O homem é o único ser que se sente só e que procura por um outro. Sua natureza - se é que podemos falar em natureza para nos referirmos ao homem, exatamente o ser que se inventou a si mesmo quando disse "não" à natureza - consiste num aspirar a se realizar em outro. O homem é nostalgia e busca a comunhão. Por isso, cada vez que se sente a si mesmo, sente-se como carência do outro, como solidão."   (Octávio Paz)  (foto: Francesca Woodman)
                 



 

18 de jul de 2012

Íntimo e impessoal



Tela ligada,
alguns vídeos safados
até tremer de tanto gozar.
Brinquedinhos me distraem
de pensar sobre mim sem parar.
"Eu sou eu":
perversão moderna,
excesso de psicanálise.
Contra masturbação mental:
masturbação.
Por ora, esqueço
minhas leves inclinações suicidas,
ligo o bidê,
aproveito para ler
os grandes clássicos
(que sempre terminam no banheiro).
Saio inspirada para
escrever comprido
e enviar afago, de levinho,
só beijos & amor &.
Sem assinatura.


16 de jul de 2012



Vai se aproximando agosto. Já sinto o leve afago da melancolia no occipital. Agarro-me aos fevereiros, que eu sei, sempre vêm ao meu encontro. Farejo procurando as frestas solares. Celebro as pequenas-raras flores de inverno. Olho até lacrimejar o céu desnudo, fantasiando nuvens de fevereiro. Os fevereiros me são tão dadivosos!  Prenunciam marços, cheios de águas, que às vezes marejam a alma, e sempre levam aquilo que já não. Mas os agostos insistem em chegar. Reza brava, defumação de fora pra dentro e de dentro pra fora, guia no pescoço (a eterna esperança de enganar o tempo). Não. Não há mandinga que me traga fevereiro. Ou dois setembros. Ou ao menos dois julhos. Insisto em minhas preces por redenção. E fadadas ao fracasso elas vão, curiosamente, tornando-se súplicas pelo inexorável. Minhas inclinações suicidas vão ficando mais e mais macias. Deito a cabeça na frígida mão da angústia. Fecho os olhos e mergulho. Enfim, os irresistíveis agostos. Que eu odeio (que eu amo).