12 de mar de 2014

Carta


não se assuste com esse contato EXATAMENTE AGORA. sei que sumi por tempos e não dei notícias. eu estava arrumando todos os meus livros, que você sabe, são infinitos. cheios de promessas de leituras, alguns esperam há anos, e eu jurei-juradinho-com-os-dedos-cruzados que os encontraria algum dia. quero cumprir. sou uma menina de palavra. sou uma menina de palavras. e sou uma menina de amores. isso você também sabe. daí, sigo jurando para todos os livros que encontro a cada mês. e minha lista de promessas só aumenta. tenho promessas pra cumprir até a outra vida. e meu problema é esse, nêgo. eu juro-juradinho, mas meu coração é imenso. mesmo. sei que selamos nossa amizade naquele dia em que nos encontramos, bêbados, em frente ao “bar do raul”. lembra que você abriu aquele sorriso que é só seu? e nos ligamos eternamente e caímos abraçados no chão de cerâmica vermelho cheirando a cerveja e nos beijamos e rimos muito? você cuidou tanto de mim, naquela terra louca. e por nosso amor ser eterno, às vezes o deixo para a próxima vida. e não é artimanha, nem jogo de palavra escorpiano, não. é que me perco mesmo, em meio a tantos livros, tantos amores. mas você é único (nós sempre soubemos disso, não?). então, te guardo sempre, tão vivo, que acredito que você está aqui comigo, fumando seu cigarro, bebendo sua vodca pura. mas hoje encontrei um marcador de páginas que você fez pra mim. sabe aquele com infinitos edifícios? (esse seu amor e ódio por são paulo é até bonito...) estava dentro do “a teus pés” da nossa ana c. marcava a minha loucura de mulher. a nossa, porque você é tão feminino, que talvez seja tão louco como eu... nêgo, me dei conta de que estamos longe há tanto tempo...  e saí procurando todos os marcadores que você me deu quando fiz 30 anos (te recorda da brincadeira cheia de crueldade de exu-mirim? você me ligava à noite e dizia que eu receberia a visita mais ilustre de todos os tempos. eu cheguei a ficar insone, e no fim das contas você gargalhou aquela-gargalhada-definitivamente-debochada pra dizer que, claro, eu receberia a visita do balzac. e pra compensar você veio me ver e me encheu dos seus lindos desenhos de olhos imensos e cidades). eu saí procurando você. brincando de te encontrar. você estava em mais ana c. e no “cartas” do caio fernando , que você amou. lembra que você deprimiu e devorou esse livro? depois ficou horas lendo trechos pra me provar como você e caio eram idênticos? mais uma vez, rolamos de rir no chão da sala, quando nesse delírio narcísico, você concluiu que a solução pra sua deprê seria casar com você mesmo, porque daí você estaria casando com o caio e seriam só você e ele e combinariam muito porque você é de touro e ele era de virgem e são signos de terra e você estava mesmo precisando de chão. você veio assim, na minha lembrança. eu deitei no chão, com o caio e com a ana. mas sem você, meu caio de ébano. e ri até chorar. sabe quando começo a rir e de repente você cuida de mim porque eu entro naquela de auto compaixão?  eu chorei pelas xícaras quebradas, pelo cabelo que deixo crescer pra me aquecer um pouco e por estar morrendo de rir, cheia de dentes, mas sozinha de ti, pretinho. sei que você deve estar perdido nessa paulicéia desvairada, rolando em pisos cheirando a álcool (nisso você é muito previsível), mas me escreve (e sem teclados, please!) o endereço é esse mesmo. mesmo. o de sempre, porque você sabe que diferente de ti, eu me agarro à terra, procuro um chão pra fazer meu café ralo e guardar meus livros e todas as cartas que escrevo e não envio. mas essa não é minha. é pra você.
camis  
(que te jura-juradinho, mas te ama de verdade)

PS. olha onde te encontrei no “cartas”:
“estou te querendo muito neste minuto. tinha vontade que você estivesse aqui e eu pudesse te mostrar muitas coisas, grandes, pequenas, e sem nenhuma importância, algumas (...) te escrevo, enfim, me ocorre agora, porque nem você nem eu somos descartáveis. E amanhã tem sol.”
PS. não é cósmico?
 me escreve uma carta com a letra tua.


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